Suzana.
Março 26, 2010 2 Comentários
Berenice se arrumou. Abriu o empoeirado estojo de maquiagens, passou batom, rímel, blache, e tudo mais que tinha direito. Até creme no corpo Berenice usou. E olha que a última vez que ela fez isso foi um pouco antes do segundo filho nascer, e isso já fazia 12 anos.
Roberto estava apreensivo. Nunca havia traído sua mulher. Tirando a vez com a Amanda do RH. Mas essa não conta. Os dois estavam bêbados no churrasco da empresa, foram para o banheiro ofegantes, tiraram as roupas e entre gemidos e sussurros foram interrompidos por Homero do departamento de Vendas. Felizmente Homero era quase tão hábil em guardar segredo, quanto em empacar fodas. Então com Amanda não conta.
Berenice nervosa balbuciou qualquer coisa inaudível para o marido antes de sair de casa. Pela dicção tremula ela poderia ter dito tanto “shopping” quanto “jogo da seleção”, que dava no mesmo. Principalmente para seu marido que já há muito não prestava atenção em nada vindo dela. Talvez se dissesse “vou ao futebol”, ele a notaria. Mas ainda assim; quem sabe.
Roberto tinha um casamento acomodado. Depois do terceiro filho a coisa desandou de vez. Ele ainda nutria um carinho muito especial por sua esposa, mas precisava de uma aventura. Só uma aventura. Assim quem sabe a coisa voltasse melhor. Ele sempre pensava na história de seu primo Rafael “- quando eu traí, foi aí que vi o quanto gostava de minha mulher”. Era isso que o casamento dele precisava: de uma traição. Tá certo também que a traição de Rafael foi descoberta pela esposa. E sem um tostão no bolso já que sempre foi sustentado por ela, dizer que estava arrependido e que havia percebido o quanto a amava era mesmo o melhor a se fazer. Roberto pegou um papel suado do bolso, onde estava escrito “Motel Suzana”, e foi para lá conforme o combinado.
Berenice entrou na farmácia para comprar preservativos. Não sabia se no motel tinha ou não. Seu marido nunca a levara. Há muito não se sentia mais amada. Não se cuidava mais. A última vez que esteve no salão foi em dezembro. Dezembro de 2004. Estava embarcando para a maior loucura de sua vida. Um homem que ela conheceu pela internet. Nunca se viram. Era um encontro completamente às escuras. Entrou uma sala de bate-papo, puxou assunto com o primeiro “moreno.sarado.45.procura” e depois de muito conversar, marcaram de sair. Procurou não saber muito sobre ele para não desanimar. Já bastava ter descoberto que o 45 era a idade e não o tamanho do órgão genital do seu futuro amante. Qualquer outra informação colocaria tudo a perder. “São R$ 4,75” disse a atendente. Com muita vergonha ela pagou e saiu dali.
Roberto entrou no Motel e ficou esperando nu no quarto combinado. Os minutos demoravam a passar.
Berenice chegou na porta do quarto do Motel Suzana e ameaçou desistir. Encheu o peito de fôlego como quem respira um pouco de coragem, e entrou. Olhou na cama e lá estava seu amante completamente nu. Ela disse:
- Roberto? O que você está fazendo aqui?
- Berenice? Mas você não tinha ido sei lá onde?
- Eu não acredito que era você.
- Era eu? Você não veio me seguindo? Foi você que marcou o encontro comigo.
- Sim! Fui eu Roberto.
- Você ia me trair Berenice?
- Ia Roberto. Você não me nota mais. Não me ama mais. Desisti de você.
- Desistiu de mim? Podia ter me avisado antes né?
- Ah Roberto… desisti da gente… a gente não se gosta mais…
Nesse instante ele olhou pra ela como a muito não olhava. Estava linda. Vestido novo, maquiada. Um perfume que inebriava todo o ambiente. Era como se tivesse notado a garota no canto da festa. Sozinha. Linda. Esperando alguém a tirar pra dançar. Ele estava apaixonado.
- Você está linda Berê. Você está linda. E eu ainda te amo.
Berenice e Roberto são casados até hoje, e nunca estiveram melhor. Berenice está grávida, e a caçula, Suzana, chega em abril. Encontram-se uma vez por mês naquele mesmo motel. Ele diz que vai na pelada com os amigos. Berenice as vezes chega no motel de peruca, maquiada. Como se alguém estivesse a seguindo. E nunca mais tocaram nesse assunto em sua casa. É um segredo dos dois. E somente deles.